20.1.11

Escreve o escritor todos os dias duas ou três palavras, ou mil palavras seguidas ou atropeladas por outras palavras ou pensamentos ou imagens, e na urgência de escrever esquece-se o escritor da palavra que vinha atrás para não se esquecer da palavra que vinha a seguir, e de tanto não querer esquecer-se de todas as palavras deseja o escritor ter quatro mãos para melhor e mais depressa escrever tudo o que ao seu pequeno e por vezes preguiçoso cérebro surge, e ao desejá-lo mais palavras urgem, ilumina-se a ideia, é urgente pô-la em papel que o escritor nem sempre confia no seu fiel computador, não, para lá só vão as palavras no fim de estarem todas construídas, bem alinhadas, com a lógica e semântica a ampará-las. E de não lhe chegar a capacidade de escrever tudo, porque até a dormir queria poder esticar a mão para a esferográfica e deixar escorrer cada uma das palavras que lhe inundam os pensamentos, pois sabe que nem nesse estado está o cérebro desligado, vêm-lhe as ideias todas de supetão e o que há-de fazer? Talvez venha o tempo em que baste pensar para as palavras aparecerem escritas, mas ele sabe que esse tempo não será o seu. Nesse tempo já terá ele escrito todas as palavras que lhe foram autorizadas pelo respeito que lhes tem, sem a possibilidade de escrever mais porque se esgotou o tempo mas as ideias, essas que ficaram por escrever, não, porque sabia o escritor, embora muitas vezes o tivesse esquecido, que quando o escritor escreve, entrega-se, dá de si, dá-se, até que se esgota e esvazia como um balão a quem é tirado o ar, voando levado pela falta que as palavras já não lhe fazem, até que um dia regressa para dar de si novamente porque pode tudo esgotar-se mas nunca as palavras. E isto pensa o escritor sentado na sua poltrona vermelha que tanto estima por ter sido refúgio de muitas horas de palavras escritas e ainda assim de aparência insuficiente, pois a seguir a essas já vinham outras que queriam passar á frente porque pode tudo esgotar-se mas nunca as palavras. E assim escreve o escritor, palavra após palavra como se nunca ninguém as tivesse dito e ele, na sua primária ignorância, as possuísse e libertasse qual sumidade.

Cat

5 comentários:

S* disse...

E quando as palavras aparecem, pululam sem controlo... gostei de ler.

TM disse...

Gostei.... :)

Cat disse...

S*/ TM/ auto-surpreendi-me :)
Obrigada ;)

burro@solta disse...

já li umas.... vá uma vez.
e continuo a achar uma beca confuso.
mas prontos... coiso!!!

Cat disse...

Burro@solta/ é assim a minha cabeça quando se põe a pensar... lol